editorial

cartaz_encontros

no ano em que a DeVIR, associação de actividades culturais completa 18 anos de actividade e o CAPa, centro de artes performativas do Algarve 11 anos de existência, é com bastante entusiasmo que avançamos com a 1ª edição dos encontros do DeVIR. Mais do que de um novo festival, que esteve a incubar desde 2004, estes encontros são um festival temático novo, que descomplexadamente se assume como um manifesto político, porque é reactivo. Se por um lado, resulta de um conjunto de 28 encomendas de criação, que envolvem cerca de 30 criadores portugueses, num país que pouco investe na Cultura, apresentadas nos encontros do DeVIR – criação (26 a 30 de Set no CAPa – Faro), por outro, chama a si a responsabilidade de questionar o presente e perspectivar um futuro, que não o que se adivinha para o Algarve, trazendo para actualidade questões levantadas por 12 estudiosos, debatidas nos encontros do DeVIR – ciência (24/25 de Novembro no auditório de Olhão), que poderão ser decisivas para a sustentabilidade desta região. Portugal, a par de Espanha, Itália e Grécia, é um dos países europeus, com maior risco de desertificação, física e humana. O problema da desertificação humana do interior vs a descaracterização das cidades do litoral, embora seja comum a todo o território nacional assume contornos distintos no Algarve, atendendo à singularidade das suas características geográficas – zona serrana a distar apenas 20/30 km do litoral. A proximidade entre as cidades descaracterizadas (como consequência da pressão imobiliária dos últimos 50 anos) e as aldeias cada vez mais despovoadas (resultado da dinâmica migratória, do interior para o litoral nas décadas de 60/70), pode permitir perspectivar um desenvolvimento mais equilibrado do território, numa região onde se investe quase exclusivamente no litoral, o que tem consequências cada vez mais visíveis e directas na qualidade de vida das suas populações. Move-nos o desejo de sensibilizar e de co-responsabilizar a comunidade e os decisores políticos, para uma realidade que urge ser avaliada e discutida por todos, de modo a reverter a situação actual, quer seja a nível cultural, ecológico ou social. Mais do que pretender encontrar soluções para a desertificação humana das zonas rurais da Serra do Caldeirão, ou para, a descaracterização do litoral algarvio, queremos que este festival possa contribuir para apontar diferentes direcções para uma realidade que todos, sobretudo os decisores, persistem em ignorar. Não nos interessa refletir sobre o que não tem retorno, queremos antes fomentar encontros onde, com realismo e sensatez, se desmontem falsas inevitabilidades. Queremos dizer que as gentes da Serra, apesar de abandonadas, mantêm o orgulho de serem serrenhos, e que o litoral, constantemente adulterado, é cada vez mais inóspito para os que nele vivem. Os encontos do DeVIR nascem num contexto de precariedade, de asfixia financeira – restrições impostas pelo Estado ao sector cultural, como nunca se viram, que nos obrigaram a reinventar, sem nunca perder a dimensão de serviço público. Num tempo de escassez, lançamos um novo festival que alia o social ao cultural, o ecológico e político ao artístico, aproveitando o contributo único e insubstituível que a Arte e a Cultura – criando memória e fazendo futuro, podem dar a uma sociedade sem direcções, que se está a afundar. Este festival resulta de um conjunto de encomendas feitas a criadores nacionais, o que o tornam único mas também responsável e solidário. Demos-lhes a conhecer a Serra do Caldeirão (ou Serra Mú), facultámos-lhes informações e promovemos visitas guiadas por um técnico que trabalha naquele território, sem fomentar o contacto directo e o envolvimento com as populações, evitando o lado intrusivo e voyeurista. No entanto, a Serra e os serrenhos estão presentes e em discurso directo nos 4 documetários que realizámos, nas imagens de 10 novos projectos fotográficos (desenvolvidos no âmbito do projecto Valados – 21 workshops ano 2010-12) e no making of do festival, mas também nos registos impressionistas, imagens captadas por cada um dos criadores aquando das suas primeiras vistas àquele território. Recorremos ao conhecimento de muitos, desafiando-os a reflectir e a escrever sobre a realidade de um território que partilhamos, relativamente ao qual todos somos responsáveis. Sem ignorar os últimos acontecimentos trágicos, mas também sem nos deixarmos afundar nas cinzas, aproveitamos esta publicação para editar um conjunto de entrevistas e artigos de opinião sobre o Caldeirão, onde se fala das muitas dificuldades, mas também das grandes potencialidades deste território que poucos conhecem. No final da leitura deste jornal, desafiamo-lo a reutiliza-lo, resolvendo um puzzle constituído por muitas das suas páginas que, quando juntas, resultarão num mapa/carta militar da Serra do Caldeirão, que poderá ser muito útil numa visita a um território que tem tanto de desconhecido, como de fascinante. boa viagem e bons encontros! JL